O implante foi bem instalado, osseointegrou, e a perda óssea começou depois da prótese.
Durante muito tempo a peri-implantite foi discutida quase exclusivamente como problema cirúrgico e de higiene. Um conjunto de estudos publicados nos últimos anos aponta um fator que não está na cirurgia nem no paciente: o contorno da própria prótese.
E a boa notícia embutida nisso é que esse é um fator sob controle direto de quem planeja e executa a reabilitação.
As duas variáveis
Ângulo de emergência. Medido traçando uma linha paralela ao longo eixo do implante e outra tangente à plataforma restauradora. O ângulo formado entre elas é o ângulo de emergência.
Perfil de emergência. O formato do contorno da restauração na relação com o tecido adjacente, classificado como reto, côncavo ou convexo.
As duas são diferentes e interagem entre si, e é essa interação que carrega o achado mais forte.
O que a evidência mostra
Estudo com 83 pacientes e 168 implantes, com análise radiográfica: em implantes ao nível ósseo, a prevalência de peri-implantite foi significativamente maior quando o ângulo de emergência excedeu 30 graus, comparado a ângulos iguais ou menores que 30, com 31,3% contra 15,1%. Nenhuma correlação foi observada em implantes ao nível de tecido. Quando o perfil convexo se combinou com ângulo acima de 30 graus, a prevalência subiu para 37,8%, com interação estatisticamente significativa entre ângulo e perfil.
Revisão sistemática com meta-análise, quatro estudos, 912 implantes em 397 participantes, acompanhamento de 3,8 a 10,9 anos: restaurações com ângulo igual ou menor que 30 graus foram associadas a menos alteração no nível ósseo marginal peri-implantar, mas a diferença não foi estatisticamente significativa no conjunto. Em implantes de plataforma correspondente, a diferença foi estatisticamente significativa em favor do ângulo menor.
Quanto ao perfil, a mesma meta-análise encontrou diferença clara: restaurações com perfil convexo apresentaram taxa significativamente maior de peri-implantite, 57,8%, comparadas às de perfil côncavo ou reto, 21,3%, com razão de risco de 2,32.
Revisão sistemática de 2022, três estudos, 168 a 349 implantes: os dois estudos que apresentaram prevalência mostraram relação significativa entre peri-implantite e ângulo acima de 30 graus em implantes ao nível ósseo. Um terceiro estudo apontou perda óssea marginal menor com ângulo em torno de 20 a 40 graus.
A ressalva que precisa ser dita
A revisão de 2022 conclui de forma explícita: foram encontrados apenas três estudos elegíveis, as associações relatadas devem ser consideradas com cautela, e a causalidade permanece uma questão em aberto.
A meta-análise de 2023 conclui, dentro das limitações da revisão, que restaurações com ângulo acima ou abaixo de 30 graus parecem não ter influência significativa no nível ósseo marginal peri-implantar considerando o conjunto dos dados.
Ou seja: o achado sobre perfil convexo é o mais consistente dos dois. O achado sobre ângulo isolado é mais frágil do que o número de 30 graus sugere quando circula sem contexto, e ganha força principalmente em implantes ao nível ósseo, em plataforma correspondente, e quando combinado com perfil convexo.
Tratar 30 graus como limite absoluto é ir além do que a evidência sustenta. Ignorar completamente também.
O que fazer com isso na prática
Projetar contorno côncavo ou reto, evitando convexidade na região de emergência, especialmente em implantes ao nível ósseo. É a recomendação com melhor sustentação.
Manter ângulos menores quando o caso permite. A restrição real costuma ser a discrepância entre o diâmetro do implante e o diâmetro do dente a ser reposto, sobretudo em molares.
Reconhecer que isso começa na cirurgia. Implante posicionado em profundidade ou angulação inadequadas força a prótese a compensar com contorno, e o contorno compensatório é justamente o que a evidência associa a risco. Posição protética define posição cirúrgica, não o contrário.
Considerar acesso à higiene como critério de projeto. Contorno com ângulo menor e perfil côncavo ou reto facilita sondagem e acesso durante a manutenção. Esse benefício é prático e independe da discussão sobre causalidade.
Pensar em quem vai manter o caso. O profissional que vai tratar uma eventual peri-implantite daqui a dez anos pode não ser o mesmo que instalou. Contorno que permite acesso é um favor feito a esse profissional e ao paciente.
Perguntas frequentes
O que é ângulo de emergência em prótese sobre implante?
É o ângulo formado entre uma linha paralela ao longo eixo do implante e uma linha tangente à plataforma restauradora, medido radiograficamente, geralmente pelo aspecto mesiodistal.
Ângulo de emergência acima de 30 graus aumenta o risco de peri-implantite?
Estudo com 168 implantes encontrou prevalência de peri-implantite de 31,3% em implantes ao nível ósseo com ângulo acima de 30 graus, contra 15,1% em ângulos iguais ou menores. Meta-análise posterior, porém, não encontrou diferença estatisticamente significativa no nível ósseo marginal considerando o conjunto dos estudos, com significância apenas em implantes de plataforma correspondente.
Perfil convexo é pior que côncavo em prótese sobre implante?
É o achado mais consistente da literatura sobre o tema. Meta-análise encontrou taxa de peri-implantite de 57,8% em restaurações com perfil convexo contra 21,3% em perfil côncavo ou reto, com razão de risco de 2,32.
A relação entre contorno protético e peri-implantite está comprovada?
Não como causalidade. Revisão sistemática de 2022 conclui que as associações devem ser consideradas com cautela, dado o número reduzido de estudos elegíveis, e que a causalidade permanece uma questão em aberto.
Implantes ao nível de tecido têm o mesmo risco?
Os estudos não encontraram a mesma correlação em implantes ao nível de tecido. A associação entre ângulo acima de 30 graus e peri-implantite foi observada em implantes ao nível ósseo.
O contorno protético depende da posição cirúrgica do implante?
Sim, diretamente. Implante instalado em profundidade ou angulação inadequadas obriga a prótese a compensar com contorno, e o contorno compensatório tende a resultar em ângulos maiores e perfis convexos. É por isso que a posição protética deve orientar a posição cirúrgica.
O contorno é decisão de projeto, não de acabamento
Perfil de emergência não se resolve no ajuste final. Ele nasce na posição do implante e se define no desenho da prótese.
A aula O Novo Fluxo da Prótese Sobre Implantes, disponível no Omega Hub, trabalha esse fluxo do planejamento à peça final.
Referências
- Katafuchi M et al. Restoration contour is a risk indicator for peri-implantitis: A cross-sectional radiographic analysis.
- Atieh MA et al. Influence of implant restorative emergence angle and contour on peri-implant marginal bone loss: A systematic review and meta-analysis. Clin Implant Dent Relat Res, 2023. PMID: 37183357.
- Soulami S et al. Implant-abutment emergence angle and profile in relation to peri-implantitis: A systematic review. Clin Exp Dent Res, 2022. PMC9382038.
- Association of prosthetic features and peri-implantitis: A cross-sectional study. PMID: 31912511.
- Influence of Prosthetic Emergence Profile on Peri-Implant Marginal Bone Stability: A Comprehensive Review. PMC11943486.

