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    Como orientar e analisar uma tomografia antes de medir qualquer coisa

    Artigo

    Como orientar e analisar uma tomografia antes de medir qualquer coisa

    Medida feita em volume mal orientado é precisa e errada ao mesmo tempo.

    Existe um erro que acontece com frequência e não deixa rastro: o dentista abre o volume, encontra a região, traça a medida e anota o número. O software informa 11,4 mm com uma casa decimal, e essa precisão aparente esconde que o corte foi feito obliquamente ao eixo real do rebordo.

    A medida está errada, e nada na tela indica isso.

    Orientar o volume antes de medir não é preciosismo. É o que faz a medida corresponder à anatomia.

    Os três planos, e o que cada um resolve

    A reconstrução multiplanar exibe o volume em três planos ortogonais entre si, e a navegação acontece movendo um em relação aos outros dois.

    Axial. Corte paralelo ao plano oclusal, visto de cima. É onde se define o traçado da curva do arco, que gera os cortes transversais. É também o plano em que se avalia a forma do rebordo e a posição relativa das estruturas.

    Coronal. Corte frontal. Útil para relação com seio maxilar, fossa nasal e para avaliar simetria.

    Sagital. Corte lateral. Relação anteroposterior e inclinação.

    Transversal ou cross-section. Não é um plano fixo: é gerado perpendicularmente à curva traçada no axial. É o corte que responde à pergunta de espessura vestibulolingual, e é o que mais depende de orientação correta.

    Aqui está a origem do erro mais comum: o corte transversal só é perpendicular ao rebordo se a curva no axial acompanhar o rebordo. Curva traçada às pressas gera cortes oblíquos, e corte oblíquo alarga artificialmente a espessura óssea aparente.

    A sequência antes de medir

    1. Conferir a integridade do volume. Antes de qualquer coisa, percorrer o volume completo procurando artefato de movimento. Se houver, a orientação não corrige.

    2. Reorientar o volume. Alinhar o plano oclusal na horizontal e a linha média na vertical, usando referências anatômicas estáveis. Volume adquirido com a cabeça inclinada produz cortes inclinados, e a inclinação se propaga para todas as medidas.

    3. Traçar a curva do arco no axial, em um corte que passe pela região média do rebordo, acompanhando a anatomia e não uma curva genérica.

    4. Verificar a perpendicularidade conferindo alguns cortes transversais em regiões conhecidas antes de confiar na série inteira.

    5. Só então medir.

    Pular a etapa 2 é o atalho mais comum e o que mais custa, porque o resultado parece correto.

    O que a medida na tela não diz

    Precisão numérica não é acurácia. O software exibe casas decimais porque calcula distância entre dois pontos que você clicou. A precisão do número não tem relação com a correção do posicionamento dos pontos.

    A resolução limita o que existe para medir. Estrutura de dimensão próxima ao tamanho do voxel não é dimensionável com confiança. Em volume adquirido com voxel de 0,4 mm, discutir diferenças de décimos de milímetro é discutir ruído.

    Valores de cinza não são densidade óssea. Os valores gerados pela tomografia de feixe cônico não equivalem a unidades Hounsfield da tomografia médica e variam conforme equipamento e protocolo. Servem como referência comparativa dentro do mesmo exame, não como medida absoluta de qualidade óssea.

    Artefato pode criar e apagar estrutura. Faixa escura entre dois objetos metálicos pode simular perda óssea. Endurecimento de feixe pode fazer a estrutura metálica parecer maior do que é.

    Os quatro erros que mais aparecem

    Medir no corte adjacente. O canal mandibular muda de altura ao longo do trajeto, e o seio maxilar muda de contorno. Medir no corte ao lado do sítio planejado é medir outro lugar.

    Confundir corte oblíquo com corte transversal. Já descrito, e o mais frequente.

    Interpretar ruído como achado. Voxel pequeno com dose baixa produz imagem granulada. Aumentar o zoom não aumenta informação.

    Avaliar tecido mole. Os volumes de tomografia de feixe cônico não são confiáveis para demonstrar lesões de tecido mole, a menos que já tenham causado alteração em tecido duro. Contorno gengival visível na tela não é dado confiável de espessura de mucosa.

    A leitura sistemática do volume

    Além da região de interesse, existe o resto do volume, e ele precisa ser percorrido. O posicionamento conjunto da AAE com a AAOMR estabelece que o profissional que solicita a tomografia é responsável por interpretar o volume de imagem inteiro, como em qualquer outro exame radiográfico.

    Uma sequência que funciona: percorrer o volume no axial de cima a baixo, depois no coronal de frente para trás, depois no sagital de um lado ao outro. Três varreduras completas antes de voltar à região que motivou o exame.

    O que se procura nessas varreduras não é a lesão que você já espera. É a que você não estava procurando.

    Como orientar e analisar uma tomografia antes de medir qualquer coisa

    Perguntas frequentes

    Por que preciso reorientar o volume antes de medir?

    Porque o volume é adquirido com a cabeça do paciente na posição em que ela ficou, e essa inclinação se propaga para todos os cortes. Sem reorientação, os cortes transversais podem ficar oblíquos ao rebordo, o que altera a espessura óssea aparente sem que nada na tela indique o erro.

    O que é reconstrução multiplanar?

    É a exibição do volume tomográfico em três planos ortogonais entre si, axial, coronal e sagital, com navegação sincronizada. Os cortes transversais são gerados perpendicularmente a uma curva traçada no plano axial.

    A tomografia mede densidade óssea?

    Não em valores absolutos. Os valores de cinza gerados pela tomografia de feixe cônico não equivalem às unidades Hounsfield da tomografia médica e variam conforme equipamento e protocolo. Servem como referência comparativa dentro do mesmo exame.

    Aumentar o zoom melhora a análise da imagem?

    Não. O zoom amplia o que já foi capturado, sem acrescentar informação. Estruturas com dimensão próxima ao tamanho do voxel não são avaliáveis com confiança, independentemente da ampliação.

    Preciso avaliar todo o volume ou só a região que pedi?

    Todo o volume. O posicionamento conjunto da AAE com a AAOMR estabelece que o profissional solicitante é responsável por interpretar o volume de imagem inteiro, assim como em qualquer outro exame radiográfico.

    A tomografia mostra a espessura da gengiva?

    Não de forma confiável. Os volumes de tomografia de feixe cônico não são confiáveis para demonstrar lesões de tecido mole, exceto quando já houve alteração em tecido duro. Avaliação de fenótipo gengival é clínica.

    Manipular o volume é uma habilidade, e se treina

    Importar, reorientar, traçar a curva, gerar cortes transversais corretos e percorrer o volume inteiro de forma sistemática são operações que se aprendem fazendo, com correção.

    A Masterclass Tomografia na Prática do Omega Hub trabalha exatamente essa manipulação, com o software aberto.


    Referências

    1. American Association of Endodontists e American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology. Joint Position Statement: Use of Cone Beam Computed Tomography in Endodontics, atualização de 2015.
    2. American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology. Executive Opinion Statement on Performing and Interpreting Diagnostic Cone Beam Computed Tomography.
    3. Syahraini et al. Field of view and voxel size considerations in cone-beam computed tomography: a systematic review. Odonto Dental Journal.
    4. Quantitative analysis of metal artifact reduction using the auto-edge counting method in cone-beam computed tomography. PMC7264136.