O seio maxilar pode estar inflamado. Mas, em alguns casos, tratar apenas o seio significa deixar a causa onde ela começou.
Congestão nasal, secreção, pressão na face e alterações no seio maxilar costumam direcionar a investigação para uma doença sinusal.
Mas existe uma situação em que o problema pode começar alguns milímetros abaixo: nos dentes posteriores da maxila.
A sinusite odontogênica é uma sinusite infecciosa associada a uma fonte dental ou a complicações de procedimentos odontológicos. Periodontite apical, comunicações oroantrais após extrações e, com menor frequência, complicações relacionadas a implantes, enxertos no seio maxilar e doença periodontal podem estar envolvidas.
O desafio é que nem sempre existe dor de dente. E nem toda alteração observada no seio maxilar ao lado de um dente significa que a origem é odontogênica.
É justamente aí que diagnóstico clínico e imagem precisam conversar.

Quando desconfiar da origem odontogênica
Um dos sinais mais importantes é a unilateralidade.
A sinusite odontogênica costuma se apresentar de um lado. Em pacientes com opacificação unilateral do seio maxilar, a possibilidade de uma origem dental merece atenção especial.
Uma revisão de 2024 aponta que a origem odontogênica pode estar relacionada a aproximadamente 25% a 40% das sinusites maxilares. Quando a investigação é direcionada à doença unilateral do seio maxilar, estudos relatam proporções ainda maiores de casos odontogênicos.
Isso não significa que toda sinusite unilateral venha de um dente.
Significa que, diante de uma alteração predominantemente unilateral, ignorar a maxila posterior pode deixar uma parte importante do diagnóstico de fora.
Outros elementos também aumentam a suspeita: secreção purulenta unilateral, odor desagradável percebido pelo próprio paciente, histórico recente de tratamento odontológico e presença de patologia dental no mesmo lado da alteração sinusal.
Curiosamente, a dor dental pode estar ausente.
É possível que o paciente procure primeiro um otorrinolaringologista acreditando ter apenas uma sinusite persistente, enquanto o foco odontogênico permanece silencioso.
[IMAGEM 1: inserir aqui uma imagem REAL e anonimizada de CBCT mostrando alteração unilateral do seio maxilar associada a um molar ou pré-molar superior com lesão periapical]
Legenda sugerida: Alteração unilateral do seio maxilar associada a um foco odontogênico. A relação anatômica entre a lesão dental e o assoalho sinusal é uma informação importante na investigação.
Nem todo espessamento da mucosa é sinusite odontogênica
Esse é provavelmente o cuidado mais importante na interpretação.
O dentista solicita uma tomografia e encontra espessamento da mucosa do seio maxilar próximo às raízes de um molar.
É tentador concluir:
“O dente está causando sinusite.”
Mas o raciocínio não pode parar aí.
Alterações da mucosa sinusal são relativamente comuns nos exames odontológicos. Além disso, proximidade anatômica não demonstra necessariamente uma relação causal.
Uma revisão sobre sinusite odontogênica apresenta um exemplo bastante didático: um paciente possuía doença endodôntica e periodontal em um molar superior, erosão óssea periapical e espessamento da mucosa adjacente. Mesmo assim, a endoscopia nasal não mostrou purulência ou edema e o caso não foi diagnosticado como sinusite odontogênica.
Essa diferença é fundamental.
Espessamento mucoso é um achado radiográfico. Sinusite odontogênica é um diagnóstico.
Para estabelecer a origem odontogênica, é necessário correlacionar a alteração sinusal com a existência de uma fonte dental compatível e com evidências clínicas de sinusite.
Por isso, a leitura não deve avaliar somente a espessura da mucosa.
O que procurar do lado odontológico
A investigação começa procurando uma causa que faça sentido naquele lado da maxila.
A periodontite apical é uma das principais fontes odontogênicas descritas. Uma meta-análise publicada no Journal of Endodontics encontrou associação entre lesões apicais e sinusite maxilar de origem odontogênica, assim como entre doença periodontal e a condição. Os próprios autores ressaltam, porém, que a certeza da evidência para essas associações foi muito baixa.
Isso reforça um princípio importante: um único achado não deve decidir o diagnóstico.
Na imagem, alguns elementos merecem atenção conjunta:
Lesão periapical em dentes posteriores superiores.
Perda da cortical do assoalho do seio próxima à lesão.
Espessamento localizado da mucosa sobre a região apical.
Opacificação parcial ou completa do seio maxilar.
Comunicação oroantral após extração.
Material ou corpo estranho deslocado para o interior do seio.
Alterações relacionadas a implantes ou procedimentos de levantamento do seio maxilar.
O contexto também importa.
Um pequeno espessamento localizado junto a uma raiz não tem o mesmo significado de um seio unilateralmente opacificado associado a uma lesão periapical e perda de continuidade do assoalho.
[IMAGEM 2: inserir aqui cortes REAIS e anonimizados de CBCT mostrando uma lesão periapical de molar superior, a relação com o assoalho do seio e a alteração da mucosa adjacente]
Legenda sugerida: A avaliação tridimensional permite analisar simultaneamente a origem dental, o assoalho do seio maxilar e a resposta da mucosa sinusal.
Onde a tomografia realmente ajuda
Radiografias periapicais continuam tendo papel importante na investigação odontológica.
Mas a região posterior da maxila apresenta uma dificuldade conhecida: raízes, cortical óssea, processo zigomático e assoalho do seio podem se sobrepor em uma imagem bidimensional.
É exatamente quando essa sobreposição impede responder a uma pergunta clínica que a imagem tridimensional ganha valor.
As recomendações conjuntas da American Dental Association e da American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology, publicadas em 2026, orientam que a radiografia intraoral 2D permaneça como exame inicial para avaliação dentária, mas indicam que a CBCT pode ser considerada quando existe suspeita de sinusite maxilar de origem endodôntica. Quando indicada, deve ser utilizado o menor campo de visão compatível com a informação necessária.
A tomografia pode ajudar a verificar:
se existe uma lesão apical não claramente identificada no exame bidimensional;
qual é a relação entre as raízes e o assoalho do seio;
se existe perda ou preservação da cortical óssea;
se a alteração mucosa é localizada junto ao foco dental ou mais extensa;
se existe opacificação sinusal;
e se há complicações relacionadas a extrações, implantes ou outros procedimentos.
Mas existe um limite importante.
A CBCT pode demonstrar muito bem a possível fonte odontogênica. Ela não deve, isoladamente, encerrar todo o diagnóstico de sinusite odontogênica.

O diagnóstico não pertence a uma especialidade só
O consenso multidisciplinar internacional propõe uma divisão bastante clara.
O profissional da odontologia deve confirmar se existe uma patologia dental compatível por meio de exame clínico, testes dentários e imagem.
O otorrinolaringologista, por sua vez, confirma a sinusite, principalmente pela avaliação clínica e pela endoscopia nasal, procurando achados como purulência no meato médio, edema ou pólipos.
Isso resolve uma confusão comum.
O dentista não precisa olhar uma alteração de mucosa na CBCT e tentar definir sozinho toda a doença sinusal. Da mesma forma, avaliar apenas o seio sem investigar os dentes pode deixar a fonte infecciosa sem tratamento.
A sinusite odontogênica está justamente na interface entre as duas áreas.
Em alguns pacientes, a origem dental estará evidente.
Em outros, a tomografia médica mostrará opacificação unilateral importante sem uma lesão dentária óbvia. Ainda assim, uma avaliação odontológica direcionada pode identificar necrose pulpar ou periodontite apical que não estava evidente inicialmente na imagem.
[IMAGEM 3: inserir aqui uma imagem REAL e anonimizada mostrando o seio maxilar unilateralmente comprometido e a região dentária correspondente, de preferência com cortes coronal e sagital]
Legenda sugerida: A avaliação do seio maxilar deve incluir também a dentição adjacente. Em casos unilaterais, a investigação de uma possível origem odontogênica ganha importância.
Tratar o dente resolve a sinusite?
Às vezes, sim.
Mas não sempre.
E é aqui que a sinusite odontogênica deixa de ser apenas uma questão de diagnóstico radiográfico.
Quando existe uma patologia dental tratável, eliminar ou controlar a origem odontogênica é parte importante do tratamento. Dependendo do caso, isso pode envolver tratamento endodôntico, retratamento, extração ou manejo de uma comunicação oroantral, entre outras abordagens.
Mas uma doença sinusal estabelecida pode persistir mesmo depois do tratamento odontológico.
Uma revisão de 2022 destaca que, quando tanto a patologia dental quanto a sinusite são adequadamente abordadas, a resolução é esperada em aproximadamente 90% a 100% dos casos. O mesmo trabalho ressalta que antibióticos isoladamente costumam ser insuficientes quando existe uma fonte dental tratável.
Isso explica por que alguns pacientes passam por vários ciclos de medicação e continuam apresentando sintomas.
A infecção pode ser temporariamente controlada, enquanto a origem permanece.
Por outro lado, também não seria correto dizer que todo paciente precisa obrigatoriamente de cirurgia endoscópica.
A decisão depende da causa odontogênica, extensão da doença sinusal, intensidade dos sintomas, duração do quadro e resposta ao tratamento.
Um estudo de 2024 com 172 pacientes encontrou melhores taxas de sucesso com o tratamento combinado odontológico e endoscópico, especialmente em doença crônica. Mas diferentes sequências de tratamento podem ser apropriadas de acordo com a apresentação clínica.
É por isso que consensos recentes defendem um planejamento conjunto entre dentista, otorrinolaringologista e paciente, em vez de um protocolo único aplicado a todos os casos.
O que muda na prática
Sinusite unilateral pede atenção à maxila posterior.
Não significa origem dental automática, mas aumenta a importância de procurar uma possível fonte odontogênica.
Ausência de dor de dente não exclui o diagnóstico.
Alguns pacientes apresentam principalmente sintomas nasais e podem nem perceber que existe uma alteração odontológica associada.
Espessamento mucoso não é diagnóstico de sinusite odontogênica.
O achado precisa ser interpretado junto à patologia dental, extensão da alteração sinusal e quadro clínico.
A tomografia precisa responder uma pergunta.
Investigar uma lesão apical duvidosa, verificar a relação com o assoalho do seio ou pesquisar uma possível comunicação são perguntas objetivas. Solicitar CBCT apenas porque “o seio apareceu alterado” é outra situação.
Não olhe somente para o seio.
Ao encontrar opacificação ou alteração unilateral, a dentição posterior do mesmo lado precisa fazer parte da leitura.
Não olhe somente para o dente.
Uma lesão periapical próxima ao seio não significa automaticamente que existe sinusite odontogênica.
O tratamento pode ser multidisciplinar.
Eliminar a fonte dental é importante quando ela existe, mas pacientes com doença sinusal estabelecida podem também precisar de avaliação e tratamento otorrinolaringológico.
Perguntas frequentes
Toda alteração no seio maxilar próxima a um dente é de origem odontogênica?
Não.
Espessamento mucoso pode ocorrer por diferentes motivos e também pode ser encontrado incidentalmente em exames odontológicos.
Para suspeitar de origem odontogênica é necessário avaliar se existe uma patologia dental compatível, sua relação anatômica com o seio e o quadro sinusal do paciente.
A sinusite odontogênica sempre causa dor de dente?
Não.
O paciente pode apresentar principalmente sintomas nasais, como obstrução unilateral, secreção, pressão facial e odor desagradável.
Por isso, ausência de dor dental não é suficiente para excluir uma possível origem odontogênica.
Sinusite de um lado só significa que o problema é dental?
Não.
A doença unilateral possui outros diagnósticos diferenciais e precisa ser investigada adequadamente.
Porém, a origem odontogênica é uma causa importante de doença unilateral do seio maxilar e deve fazer parte da investigação.
Quando a CBCT pode ser útil?
Quando existe uma questão odontológica que não foi adequadamente respondida pelo exame clínico e pelas imagens bidimensionais.
A CBCT pode ajudar na investigação de doença periapical, relação entre raízes e assoalho sinusal, perda de cortical, comunicação oroantral e alterações associadas a procedimentos odontológicos.
As recomendações ADA/AAOMR de 2026 incluem a suspeita de sinusite maxilar de origem endodôntica entre as situações em que a CBCT pode ser considerada.
O dentista consegue diagnosticar a sinusite odontogênica apenas pela tomografia?
Não deveria fazê-lo apenas pela imagem.
O diagnóstico multidisciplinar envolve a confirmação da patologia odontológica pelo profissional de odontologia e a confirmação da sinusite pelo otorrinolaringologista quando necessário, frequentemente com auxílio da endoscopia nasal.
Antibiótico resolve?
Pode ajudar no controle da infecção e dos sintomas em determinadas situações, mas tratar somente com antibióticos pode falhar quando uma fonte odontogênica tratável permanece presente.
O tratamento definitivo precisa considerar a causa dental e a extensão da doença sinusal.
O seio maxilar também faz parte da leitura odontológica
A proximidade entre raízes posteriores e seio maxilar faz com que alterações odontológicas e sinusais frequentemente apareçam na mesma imagem.
O desafio está em não simplificar essa relação.
Um espessamento de mucosa não transforma automaticamente um molar em causador de sinusite. Da mesma forma, uma sinusite unilateral persistente não deveria ser avaliada sem atenção aos dentes adjacentes.
A imagem tridimensional ganha valor justamente nesse intervalo.
Ela ajuda a responder se existe uma fonte dental, como essa fonte se relaciona com o seio e quais informações precisam ser levadas para a decisão clínica.
Porque, neste caso, interpretar bem a tomografia não significa apenas olhar para os dentes.
Significa saber quando é preciso olhar além deles.
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