Uma Revisão Clínica para Cirurgiões-Dentistas
Introdução
O levantamento de seio maxilar, também conhecido como sinus lift ou cirurgia de elevação do assoalho sinusal, é um dos procedimentos mais relevantes no arsenal da implantodontia contemporânea. Indicado quando há insuficiência de volume ósseo na região posterior da maxila, esse procedimento viabiliza a instalação de implantes osseointegrados em situações que, até poucas décadas atrás, seriam consideradas inviáveis.
Com a crescente reabsorção alveolar que ocorre após a perda dentária, associada à pneumatização do seio maxilar, muitos pacientes chegam à consulta com altura óssea subantral insuficiente para a colocação segura de implantes. Nesse contexto, dominar as diferentes técnicas de levantamento sinusal, suas indicações, limitações e protocolos é fundamental para o sucesso clínico e para a segurança do paciente.
Anatomia e Relevância Clínica do Seio Maxilar
O seio maxilar é a maior cavidade paranasal do crânio humano, revestida por epitélio pseudoestratificado ciliado (membrana de Schneider). Sua proximidade com os ápices dos dentes posteriores superiores torna essa região anatomicamente desafiadora para a implantodontia.

Após extrações dentárias na região, dois fenômenos ocorrem simultaneamente: a reabsorção do rebordo alveolar e a pneumatização sinusal, que avança em direção inferior. O resultado é a redução progressiva da altura óssea disponível, frequentemente abaixo dos 4 a 5 mm considerados mínimos para uma ancoragem primária adequada do implante (BOYNE; JAMES, 1980).
Classificação e Indicações
A escolha da técnica está diretamente relacionada à altura óssea residual (HOR) disponível abaixo do assoalho sinusal:
| Altura Óssea Residual | Técnica Indicada |
|---|---|
| 10 mm ou mais | Implante sem enxerto |
| 6 a 9 mm | Técnica transalveolar (Summers) |
| 4 a 5 mm | Técnica transalveolar com enxerto |
| Menos de 4 mm | Técnica de janela lateral (Caldwell-Luc modificado) |
Principais Técnicas Cirúrgicas
1Técnica de Janela Lateral (Abordagem de Tatum / Boyne e James)
Considerada o método padrão-ouro para casos com altura óssea severamente comprometida (menos de 5 mm), a técnica de janela lateral foi introduzida por Hilt Tatum na década de 1970 e popularizada por Boyne e James em 1980.
Princípio: Realização de uma osteotomia lateral na parede vestibular do seio maxilar, seguida de descolamento cuidadoso da membrana de Schneider e preenchimento do espaço criado com material enxertivo.
Protocolo cirúrgico simplificado:
- Incisão e retalho mucoperiosteal com ampla exposição da parede lateral da maxila
- Osteotomia com broca esférica, ultrassom piezoelétrico ou laser (preferível para preservação da membrana)
- Descolamento delicado da membrana de Schneider com descoladores específicos
- Inserção do material enxertivo (osso autógeno, xenoenxerto bovino, aloenxerto ou materiais sintéticos)
- Instalação imediata ou tardia do implante, a depender da HOR disponível
Vantagens: Ampla visibilidade, possibilidade de trabalhar em grandes extensões, versatilidade para diferentes materiais de enxerto.
Limitações: Maior morbidade pós-operatória, necessidade de período de cicatrização mais longo, de 6 a 9 meses antes da implantação, quando realizada em estágio único (TATUM, 1986).
2Técnica Transalveolar (Osteótomos de Summers)
Descrita por Robert Summers em 1994, essa abordagem minimamente invasiva é indicada para casos com HOR entre 5 e 9 mm e permite, simultaneamente, a elevação do assoalho sinusal e a instalação do implante.
Princípio: Utilização de osteótomos côncavos de diâmetros progressivos, inseridos pelo leito implantar, para condensar lateralmente o osso esponjoso e deslocar o assoalho sinusal em direção superior de forma controlada.
Protocolo cirúrgico simplificado:
- Preparo do leito com sequência de brocas até 1 a 2 mm aquém do assoalho sinusal
- Introdução sequencial dos osteótomos (do menor para o maior diâmetro)
- Elevação hidráulica ou mecânica da membrana de Schneider
- Inserção opcional de material enxertivo antes da colocação do implante
- Instalação do implante com torque adequado para estabilidade primária
Vantagens: Menor invasividade, redução da morbidade, possibilidade de instalação simultânea do implante, menor tempo cirúrgico e de cicatrização.
Limitações: Campo operatório limitado, maior risco de perfuração não detectada da membrana, dependência de boa estabilidade primária do implante (SUMMERS, 1994).
3Técnica de Elevação Hidráulica (Balloon Sinus Lift)

Uma evolução das técnicas minimamente invasivas, a elevação hidráulica utiliza a injeção de solução salina estéril ou de material enxertivo fluido por meio de uma cânula posicionada no leito implantar para elevar a membrana de Schneider de forma atraumática.
Variante com balão: Um cateter com balão expansível é inserido no seio, inflado progressivamente com solução salina, promovendo a elevação controlada da membrana. Após a elevação, o balão é desinflado e removido, e o espaço criado é preenchido com enxerto.
Vantagens: Alta previsibilidade de elevação, menor trauma à membrana, boa aceitação pelo paciente.
Limitações: Custo mais elevado dos dispositivos, curva de aprendizado específica, indicação restrita a casos selecionados (CHEN; JIANG, 2015).
4Técnica com Piezocirurgia
Não se trata de uma técnica independente, mas de um recurso que pode ser associado à abordagem de janela lateral para torná-la mais segura. O ultrassom piezoelétrico permite cortes ósseos precisos com vibração seletiva que respeita tecidos moles, reduzindo significativamente o risco de perfuração da membrana de Schneider.
Indicação principal: Casos em que a membrana é fina, aderente à parede lateral ou quando há septos sinusais anatômicos, situação que eleva o risco de rasgadura (VERCELLOTTI et al., 2001).
5Técnica da Osseodensificação
Desenvolvida pelo Dr. Salah Huwais e introduzida na literatura científica a partir de 2016, a técnica de osseodensificação representa uma inovação significativa no preparo do leito implantar e na elevação do assoalho sinusal, fundamentada em um conceito biomecânico distinto das abordagens convencionais.
Princípio: Em vez de remover tecido ósseo como nas brocas tradicionais, a osseodensificação utiliza brocas cônicas de geometria especial (Densah® Burs) em movimento anti-horário e alta rotação, com irrigação abundante. Esse movimento promove a compactação e densificação lateral do osso esponjoso, preservando e redistribuindo o tecido ósseo ao longo das paredes do leito implantar, ao mesmo tempo em que eleva progressivamente o assoalho sinusal de forma hidráulica e controlada.
Protocolo cirúrgico simplificado:
- Marcação do ponto de entrada e preparo inicial com broca esférica convencional
- Utilização sequencial das brocas Densah® em sentido anti-horário (modo de densificação), com aumento progressivo de diâmetro
- Irrigação contínua com solução salina para criação do efeito hidráulico sobre a membrana de Schneider
- Elevação gradual e controlada do assoalho sinusal sem necessidade de osteótomos ou acesso lateral
- Inserção opcional de material enxertivo pelo próprio leito implantar antes da instalação do implante
- Colocação do implante com ganho de estabilidade primária decorrente da condensação óssea lateral
Vantagens: Técnica minimamente invasiva com elevação sinusal pelo acesso transalveolar; melhora significativa da estabilidade primária do implante em osso de baixa densidade (tipos III e IV); preservação do volume ósseo pela compactação lateral em vez de remoção; menor trauma à membrana de Schneider em comparação aos osteótomos percussivos; redução da morbidade pós-operatória e do tempo de cicatrização.
Limitações: Necessidade de aquisição de kit de brocas específico (Densah® Burs), o que representa custo adicional; curva de aprendizado para controle adequado do torque e da sequência de brocas; indicação limitada a casos com HOR igual ou superior a 5 mm, sendo insuficiente como técnica isolada em reabsorções ósseas severas (HUWAIS; MEYER, 2017).
Materiais de Enxerto: Considerações Atuais
A escolha do material enxertivo influencia diretamente a qualidade e a velocidade da neoformação óssea. As opções disponíveis incluem:
- Osso autógeno: Padrão-ouro biológico; alta capacidade osteogênica, osteocondutora e osteoindutora. Limitado pelo volume disponível e morbidade do sítio doador.
- Xenoenxerto bovino (Bio-Oss®): O mais estudado e utilizado mundialmente. Excelente osteocondutor, reabsorção lenta, boa manutenção volumétrica a longo prazo.
- Aloenxerto: Osso de banco, com boa disponibilidade e sem morbidade adicional. Menor potencial osteogênico que o autógeno.
- Materiais aloplásticos (sintéticos): Hidroxiapatita, beta-tricálcio-fosfato (β-TCP) e combinações. Reabsorção variável; indicados frequentemente em associação com outros materiais.
A tendência atual aponta para o uso de xenoenxertos ou misturas, como osso autógeno combinado com xenoenxerto bovino, como protocolo de referência, aliando custo-benefício, previsibilidade e redução da morbidade (JENSEN; TERHEYDEN, 2009).

Complicações e Manejo
A complicação mais frequente é a perfuração da membrana de Schneider, com incidência relatada entre 10% e 35%. Perfurações menores (menos de 5 mm) podem ser gerenciadas com membranas de colágeno reabsorvíveis; lacerações maiores exigem sutura ou, em casos severos, o cancelamento e replanejamento do procedimento.
Outras complicações incluem:
- Sinusite maxilar pós-operatória
- Deslocamento de implante para o interior do seio
- Infecção e falha do enxerto
- Parestesia transitória da região infraorbitária
A avaliação pré-operatória com tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) é indispensável para identificar espessura da membrana, presença de septos sinusais, patologias prévias e definição precisa da HOR (ROSEN et al., 1999).
Considerações Finais
O levantamento de seio maxilar é um procedimento seguro, bem documentado e com elevadas taxas de sucesso quando executado com planejamento criterioso e técnica apurada. A evolução das abordagens minimamente invasivas ampliou significativamente o repertório do implantodontista, permitindo reduzir a morbidade e o tempo de tratamento sem comprometer os resultados.
A seleção da técnica deve ser fundamentada em critérios objetivos, como altura óssea residual, qualidade óssea, anatomia sinusal e perfil do paciente, sempre aliada à capacitação clínica específica e ao uso de tecnologias auxiliares como a piezocirurgia e o CBCT.
O domínio desse procedimento representa não apenas uma expansão das indicações para implantes, mas um compromisso com a oferta de tratamentos reabilitadores completos, seguros e duradouros para os pacientes.
Referências
BOYNE, P. J.; JAMES, R. A. Grafting of the maxillary sinus floor with autogenous marrow and bone. Journal of Oral Surgery, v. 38, n. 8, p. 613-616, 1980.
CHEN, L.; JIANG, J. Hydraulic sinus condensing technique for sinus floor elevation and implant placement. International Journal of Oral and Maxillofacial Implants, v. 30, n. 2, p. 331-337, 2015.
HUWAIS, S.; MEYER, E. G. A novel osseous densification approach in implant osteotomy preparation to increase biomechanical primary stability, bone mineral density, and bone-to-implant contact. International Journal of Oral and Maxillofacial Implants, v. 32, n. 1, p. 27-36, 2017.
JENSEN, O. T.; TERHEYDEN, H. Health of grafted sites. International Journal of Oral and Maxillofacial Implants, v. 24 (Suppl), p. 15-29, 2009.
ROSEN, P. S. et al. The bone-added osteotome sinus floor elevation technique: multicenter retrospective report of consecutively treated patients. International Journal of Oral and Maxillofacial Implants, v. 14, n. 6, p. 853-858, 1999.
SUMMERS, R. B. A new concept in maxillary implant surgery: the osteotome technique. Compendium of Continuing Education in Dentistry, v. 15, n. 2, p. 152-160, 1994.
TATUM, H. Maxillary and sinus implant reconstructions. Dental Clinics of North America, v. 30, n. 2, p. 207-229, 1986.
