A comparação mais citada é entre digital e analógico. A evidência aponta uma divisão diferente.
A conversa sobre placa oclusal digital costuma ser organizada como fluxo digital contra fluxo convencional, com a impressão 3D aparecendo como a opção acessível e a fresagem como a opção premium.
Uma revisão sistemática sobre comportamento de desgaste de materiais para placas oclusais, fabricados por diferentes métodos, encontrou um recorte que não corresponde a essa divisão.
O que a revisão encontrou
A menor perda volumétrica foi observada nos materiais em PEEK.
Acrílico termopolimerizável, fresado em CAD e impresso em 3D não apresentaram diferença significativa de desgaste entre si.
Os materiais termomoldados a vácuo apresentaram o maior desgaste.
Repare no que o segundo achado faz com a hierarquia usual. Fresado e impresso empatam. E o acrílico termopolimerizável convencional, o mais antigo dos três, empata com os dois.
A divisão real, em termos de desgaste, não é digital contra analógico. É termomoldado a vácuo em um extremo, PEEK no outro, e os três do meio equivalentes entre si.
Uma ressalva de honestidade que a própria revisão registra: os parâmetros de teste eram inconsistentes entre os estudos incluídos. Isso limita a comparação direta entre trabalhos e recomenda ler os achados como direção, não como medida.
O que isso muda na decisão
Se desgaste não separa fresado de impresso, a escolha entre os dois se decide por outros critérios.
Custo e escala. A impressão 3D tende a oferecer custo por unidade menor e maior agilidade operacional, especialmente quando a clínica já tem ecossistema digital funcionando.
Consistência do material. A fresagem trabalha com blocos industriais pré-polimerizados, com propriedades conhecidas e homogêneas. A impressão depende de resina, parâmetros de impressão e, criticamente, de pós-processamento.
Pós-processamento. É a variável de maior impacto na impressão e a mais negligenciada. Lavagem inadequada e pós-cura insuficiente comprometem propriedades mecânicas e biocompatibilidade. Duas placas impressas na mesma máquina, com o mesmo arquivo, podem ter desempenho diferente conforme o processamento posterior.
Registro sanitário. A resina precisa ter indicação e registro para uso intraoral prolongado. Resina genérica de impressão não serve, e isso não é detalhe burocrático.
Envelhecimento. Materiais poliméricos envelhecem em ambiente oral, com absorção de água, alteração de cor e mudança de propriedades ao longo do tempo. O comportamento de longo prazo tem menos evidência que o comportamento de bancada.
O que o desgaste não mede
Este é o ponto que evita transformar a revisão em argumento de venda.
Desgaste do material é um desfecho de bancada. Ele não diz nada sobre alívio de sintoma, sobre proteção efetiva do dente ao longo de anos, nem sobre satisfação do paciente.
E vale lembrar o que já estava no artigo anterior sobre placas: a eficácia não reside no dispositivo. Depende de diagnóstico correto, desenho adequado, ajustes coerentes e acompanhamento. Uma placa com desgaste excelente instalada em um caso mal diagnosticado é uma placa que dura muito tempo sem resolver nada.
Vantagens reais do fluxo digital, que não são o material
Se o material não é o diferencial, onde está o ganho?
Arquivo reutilizável. Paciente perdeu ou fraturou a placa, o arquivo permite refazer sem nova moldagem.
Etapas mensuráveis e repetíveis. Espessura, extensão e contatos definidos por parâmetro, não por sensibilidade individual do técnico.
Menos etapas manuais acumulando erro. Moldagem, gesso e montagem cada um adiciona uma fração de imprecisão.
Experiência do paciente. Escaneamento intraoral tende a ser mais confortável que moldagem convencional.
Nenhum desses ganhos aparece em teste de desgaste, e todos são reais.
Perguntas frequentes
Placa oclusal impressa dura menos que a fresada?
Não segundo os dados de desgaste disponíveis. Revisão sistemática sobre comportamento de desgaste encontrou que acrílico termopolimerizável, material fresado em CAD e material impresso em 3D não apresentaram diferença significativa de desgaste entre si.
Qual material de placa oclusal apresenta menor desgaste?
O PEEK. A mesma revisão registrou a menor perda volumétrica nos materiais em PEEK, enquanto os materiais termomoldados a vácuo apresentaram o maior desgaste.
Placa termomoldada a vácuo é uma boa opção?
Em termos de desgaste, é a que apresentou o pior desempenho na revisão citada. Isso não a inviabiliza para todas as indicações, mas pesa contra em casos com atividade parafuncional intensa e uso prolongado.
O que mais influencia a qualidade de uma placa impressa?
O pós-processamento. Lavagem e pós-cura inadequadas comprometem as propriedades mecânicas e a biocompatibilidade do material, e podem produzir resultados diferentes a partir do mesmo arquivo e da mesma impressora.
Qualquer resina de impressão serve para placa oclusal?
Não. A resina precisa ter indicação e registro sanitário para uso intraoral prolongado. Resina de uso geral para impressão 3D não atende a esse requisito.
O fluxo digital melhora o resultado clínico da placa?
Ele melhora a previsibilidade do processo, com etapas mensuráveis, arquivo reutilizável e menos etapas manuais acumulando erro. A eficácia clínica continua dependendo de diagnóstico correto, desenho adequado e acompanhamento, não do método de fabricação.
Do planejamento à confecção
Escolher material é a parte fácil. Desenhar a placa com espessura, extensão e contatos adequados ao caso, e executar o pós-processamento corretamente, é onde o resultado se define.
A aula Planejamento e Confecção de Placas Oclusais Impressas, com o Dr. Gabriel Pagliarini, mostra na prática como planejar e confeccionar placas oclusais.
Referências
- Grymak A et al. Wear Behavior of Occlusal Splint Materials Manufactured By Various Methods: A Systematic Review. PMID: 34516696.
- Hardy RS, Bonsor SJ. The efficacy of occlusal splints in the treatment of bruxism: A systematic review. PMID: 33652054.
- Albagieh H et al. Occlusal splints, types and effectiveness in temporomandibular disorder management. PMID: 36817028.

