Nem todo artefato tem solução. Saber qual é qual muda a conduta.
O volume abre, a região que interessa está tomada por estrias escuras e claras, e a leitura fica comprometida. A reação natural é atribuir o problema ao equipamento ou ao centro de imagem.
Às vezes é isso. Na maioria das vezes é física, e a diferença entre os dois casos define se vale repetir o exame ou se repetir vai devolver a mesma imagem.
Os quatro tipos que aparecem na rotina
Endurecimento de feixe
Quando o feixe atravessa material de alta densidade e alto número atômico, os fótons de baixa energia são absorvidos em proporção maior que os de alta energia. O feixe que sai do outro lado é diferente do feixe que entrou.
Isso gera dois padrões distintos. O primeiro é a distorção da própria estrutura metálica, que aparece maior do que é, o chamado artefato de cupping ou blooming. O segundo são as faixas escuras entre dois objetos metálicos, os artefatos de extinção.
É o artefato mais comum na cavidade oral, e a fonte são objetos que estão lá o tempo todo: implante, amálgama, coroa metálica, guta-percha, bráquete.

Estriamento
Faixas escuras e claras que atravessam a imagem e degradam a qualidade a ponto de tornar a região diagnosticamente inutilizável. Resultam da mesma física, agravada por escassez de fótons nas regiões de maior densidade.
Um dado que importa no planejamento: implantes posicionados lado a lado acumulam estrutura densa e intensificam o estriamento. A configuração espacial dos objetos metálicos influencia a gravidade do artefato tanto quanto o material deles.

Movimento
Deslocamento do paciente durante a aquisição. Não é local: degrada o volume inteiro, porque compromete o registro entre as projeções.
É o único dos quatro que é totalmente evitável, e por isso o mais frustrante quando acontece.

Ruído
Perda de sinal que reduz o contraste entre estruturas. Aumenta em aquisições de menor dose e em voxel muito pequeno, onde cada elemento de volume recebe menos fótons.

O que dá para contornar, e o que não dá
Movimento é prevenível. Estabilização de cabeça, orientação clara ao paciente, e principalmente escolha de protocolo com tempo de aquisição compatível. Em paciente idoso, ansioso ou com dificuldade de manter posição, aquisição mais longa em busca de resolução máxima costuma piorar o resultado final.
Endurecimento de feixe é gerenciável, não eliminável. Parâmetros de aquisição influenciam: tensão do tubo, corrente, campo de visão e tamanho de voxel afetam a quantidade de artefato produzido. Ajuste de posicionamento também pode retirar a região de interesse da linha entre dois objetos metálicos.
Ruído responde a protocolo. Aumentar resolução espacial sem aumentar dose aumenta ruído. É a troca que precisa ser feita conscientemente, não por default.
A presença do metal não se resolve. Nenhum ajuste elimina a física. Em região com múltiplos elementos metálicos, existe um teto de qualidade que a tomografia de feixe cônico não ultrapassa.
Sobre os algoritmos de redução de artefato metálico
Praticamente todo equipamento atual oferece MAR, sigla para redução de artefato metálico. O algoritmo atua na reconstrução da imagem, reduzindo perdas de valor de cinza e estrias claras.
Ele funciona, e a magnitude varia bastante. Um estudo quantitativo encontrou redução de artefato entre 17,3% e 55,4% conforme o tipo de prótese e o modo de aquisição. Outro, avaliando modos de exposição, encontrou reduções de 61,5% no modo padrão, 73,6% no modo de baixa dose e 80,3% no modo de dose ultrabaixa.
Mas existe uma contrapartida documentada, e ela é importante. Um estudo que avaliou a detecção de fenestração e deiscência ao redor de implantes encontrou que, nos dois sistemas testados, o uso do algoritmo MAR reduziu a acurácia diagnóstica. Sensibilidade, especificidade e acurácia foram maiores na ausência do algoritmo.
A explicação é coerente com o funcionamento dele: o algoritmo remove informação para remover artefato, e parte da informação removida pode ser justamente a estrutura fina que estava sendo procurada.
Uma revisão sistemática sobre o tema registra que se sabe pouco sobre a efetividade real do MAR na melhora da qualidade da imagem, e que a utilidade dele depende da tarefa diagnóstica e da configuração dos objetos metálicos.
Conclusão prática: MAR ligado não é sempre melhor. Em avaliação de osso peri-implantar fino, vale solicitar a reconstrução também sem o algoritmo e comparar.
Quando repetir e quando não repetir
Repetir significa nova dose. A decisão precisa passar por três perguntas:
A causa foi movimento? Repetir tem chance real de resolver, desde que o protocolo e a estabilização mudem.
A causa foi metal? Repetir com o mesmo protocolo devolve a mesma imagem. Vale antes verificar se o volume permite reprocessamento com outro parâmetro de reconstrução, ou com e sem MAR.
A informação que falta muda a conduta? Se o artefato compromete uma região que não decide nada no caso, o exame já cumpriu a função.
Antes de repetir, a alternativa mais barata é conversar com quem laudou. Muitas vezes o volume original comporta uma reconstrução diferente que responde à pergunta.
Perguntas frequentes
O que causa as estrias na tomografia odontológica?
Principalmente o endurecimento de feixe provocado por materiais de alta densidade, como implante, amálgama, coroa metálica e guta-percha. Os fótons de baixa energia são absorvidos em proporção maior que os de alta energia, o que gera distorção da estrutura metálica e faixas escuras entre objetos.
O algoritmo MAR resolve o artefato metálico?
Reduz, mas não elimina, e nem sempre melhora o diagnóstico. Estudos registram reduções de artefato que variam aproximadamente de 17% a 80% conforme material e modo de aquisição. Por outro lado, um estudo sobre detecção de fenestração e deiscência peri-implantar encontrou acurácia diagnóstica maior sem o algoritmo do que com ele.
Artefato de movimento tem solução?
Só na prevenção. Uma vez presente, ele compromete o volume inteiro, porque afeta o registro entre as projeções. A conduta é estabilização adequada e escolha de protocolo com tempo de aquisição compatível com o paciente.
Vale a pena repetir uma tomografia com muito artefato metálico?
Em geral, não com o mesmo protocolo, porque o resultado tende a se repetir. Vale primeiro verificar se o volume original permite reconstrução com outros parâmetros, com e sem algoritmo de redução, e se a região comprometida realmente decide a conduta.
Voxel menor reduz artefato?
Não necessariamente. Voxel menor aumenta resolução espacial, mas tende a aumentar ruído e tempo de aquisição, o que eleva o risco de artefato de movimento. Parâmetros de aquisição como tensão, corrente, campo de visão e voxel influenciam a quantidade de artefato, e a combinação adequada depende da tarefa diagnóstica.
Ler imagem com artefato é competência clínica
Reconhecer o tipo de artefato, saber o que ele apaga e o que ele simula, e decidir entre reprocessar, repetir ou seguir com a informação disponível: isso é interpretação, não é sorte.
O curso Tomografia na Prática, do Omega Hub, trabalha essa leitura, incluindo os limites reais do método.
Referências
- Efficacy of Metal Artifact Reduction Algorithm of Cone-Beam Computed Tomography for Detection of Fenestration and Dehiscence around Dental Implants. PMC8236107.
- Quantitative analysis of metal artifact reduction using the auto-edge counting method in cone-beam computed tomography. Scientific Reports, 2020. PMC7264136.
- Quantitative evaluation of metal artifact reduction in CBCT under varying exposure modes and rod orientations. Scientific Reports, 2025.
- Investigating the effectiveness of MAR algorithm on magnitude of artifacts in CBCT images: a systematic review. Oral Radiology, 2025.
- Ex Vivo Quantitative Evaluation of Beam Hardening Artifacts at Various Implant Locations in Cone-Beam Computed Tomography. PMC12732228.

