A maioria não muda nada. Uma parcela muda tudo. A dificuldade está em separar as duas.
Você pediu o exame para avaliar um implante e o laudo descreve uma alteração no seio maxilar. Ou uma calcificação em tecido mole. Ou uma imagem radiolúcida em região que não tem relação com o caso.
A reação varia entre dois extremos igualmente problemáticos: ignorar, porque não era o motivo do pedido, ou entrar em alarme e encaminhar tudo. Nenhum dos dois é conduta.
A frequência real
Um estudo avaliou os laudos de 183 pacientes submetidos a tomografia de feixe cônico com um único objetivo, localizar caninos superiores inclusos, em exames de volume pequeno, com campo de 40 por 40 ou 60 por 60 milímetros.
Foram registrados 340 achados incidentais. A distribuição por relevância:
- 1 achado (0,3%) de alta importância clínica
- 97 achados (28,5%) de importância intermediária
- 242 achados (cerca de 71%) de baixa importância ou variação anatômica normal
Os autores concluem que achados exigindo atenção imediata são raros nesse tipo de exame, e que aproximadamente 28,8% justificam acompanhamento.
Um segundo estudo dimensionou o impacto na conduta. Foram avaliadas 374 tomografias consecutivas, com 974 achados incidentais identificados, presentes em 78,6% dos exames, média de 2,6 achados por exame. Num subgrupo de 54 pacientes, os profissionais solicitantes foram consultados: os achados alteraram a conduta terapêutica em 19 casos, cerca de 35%.
Achado incidental é frequente, achado incidental relevante é minoria, e achado incidental que muda conduta existe em quantidade que não permite ignorar a categoria inteira.
A responsabilidade não é só de quem laudou
Este é o ponto que costuma surpreender.
No posicionamento conjunto da American Association of Endodontists com a American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology, consta que o profissional que solicita a tomografia de feixe cônico é responsável por interpretar o volume de imagem inteiro, assim como em qualquer outro exame radiográfico. A AAOMR, em conjunto com a academia europeia EADMFR, recomenda que o volume inteiro seja interpretado independentemente da região de interesse, com encaminhamento a um radiologista bucomaxilofacial quando o profissional não tiver experiência consolidada nesse tipo de interpretação.
E o hábito real está distante disso. Levantamento com 387 dentistas, publicado na BMC Oral Health em 2025, encontrou que apenas um terço revisa consistentemente o volume escaneado inteiro, mesmo com 85,9% relatando já ter encontrado achados incidentais. O mesmo estudo mostrou que não há consenso sobre de quem é a tarefa: 41,7% atribuíam a revisão ao solicitante, 57,1% ao radiologista especializado. A amostra é de dentistas israelenses, mas a discordância sobre a divisão de responsabilidade não é particularidade local.
Como classificar o que apareceu
A classificação por relevância clínica organiza a conduta em três níveis.
Baixa relevância ou variação anatômica. É a maioria. Registro em prontuário e nada além disso. Exemplos comuns incluem variações de forma e trajeto de estruturas anatômicas normais.
Relevância intermediária. Justifica acompanhamento ou investigação, não intervenção imediata. É a categoria que mais exige critério, porque nem seguir adiante nem encaminhar com urgência é a resposta certa.
Alta relevância. Rara, e exige encaminhamento em prazo definido. É a categoria em que a omissão tem consequência.
A dificuldade prática é que essa classificação depende de conhecimento de anatomia radiográfica e de variação normal. Confundir variação anatômica com patologia gera encaminhamento desnecessário e ansiedade no paciente. Confundir patologia com variação gera o oposto.

A conduta, passo a passo
- Não decidir pelo laudo isolado. O achado precisa ser correlacionado com exame clínico, história e sintomas. Laudo que traz "recomenda-se correlação clínica" está devolvendo essa etapa a você de forma explícita.
- Registrar em prontuário. Todo achado, inclusive os de baixa relevância. O registro é o que demonstra que o volume foi avaliado, e é o que permite comparação em exame futuro.
- Comunicar ao paciente, na medida correta. Achado de baixa relevância informado com peso excessivo gera ansiedade sem função. Achado relevante omitido é problema de outra ordem. A comunicação acompanha a classificação.
- Encaminhar quando indicado, com o exame. Encaminhamento sem o volume e sem o laudo faz o paciente repetir exame.
- Em caso de dúvida sobre a interpretação, encaminhar a um radiologista bucomaxilofacial. É a recomendação expressa das diretrizes, e não é sinal de despreparo. É o procedimento previsto.
O que aumenta a chance de encontrar
Um dado do segundo estudo conecta achado incidental a parâmetro de aquisição: achados dentários clinicamente relevantes foram significativamente mais frequentes em exames com campo de visão maior ou igual a 100 milímetros do que em campos menores, 54,7% contra 40%, com resultado semelhante nos achados de seios paranasais.
Isso não é argumento para ampliar o campo. O campo continua devendo ser limitado à região de interesse, por radioproteção. É argumento para outra coisa: o que você vai encontrar depende do que foi adquirido, e o volume adquirido inteiro precisa ser lido, seja ele grande ou pequeno.
Perguntas frequentes
O que é um achado incidental em tomografia odontológica?
É uma alteração identificada no exame sem relação com o motivo que originou o pedido. Pode incluir alterações em seios paranasais, calcificações em tecido mole, variações anatômicas e lesões ósseas.
Com que frequência aparecem achados incidentais?
Com muita frequência. Estudo com 374 tomografias consecutivas identificou 974 achados incidentais, presentes em 78,6% dos exames, média de 2,6 por exame. A maior parte é de baixa relevância clínica.
Achado incidental muda o tratamento?
Em uma parcela dos casos. No subgrupo de 54 pacientes de um dos estudos, os achados alteraram a conduta terapêutica em 19 casos, cerca de 35%. Já em estudo com exames de volume pequeno, apenas 0,3% dos achados foram classificados como de alta importância clínica e 28,5% como de importância intermediária.
De quem é a responsabilidade de identificar um achado incidental?
O posicionamento conjunto da AAE com a AAOMR estabelece que o profissional solicitante é responsável por interpretar o volume de imagem inteiro, assim como em qualquer outro exame radiográfico. A AAOMR e a EADMFR recomendam interpretação do volume inteiro independentemente da região de interesse, com encaminhamento a um radiologista bucomaxilofacial quando faltar experiência específica.
Preciso registrar em prontuário um achado sem relevância clínica?
Sim. O registro demonstra que o volume foi avaliado e permite comparação em exames futuros, além de sustentar a conduta adotada caso ela seja questionada depois.
O que fazer quando o laudo descreve um achado que eu não sei interpretar?
Encaminhar a um radiologista bucomaxilofacial para esclarecimento, o que é a recomendação expressa das diretrizes. Antes disso, vale contatar o serviço que emitiu o laudo, já que muitas dúvidas se resolvem com esclarecimento sobre o volume já adquirido, sem nova exposição do paciente.
Classificar achado é competência que se treina
Distinguir variação anatômica de patologia, e relevância intermediária de alta, depende de conhecimento de anatomia radiográfica tridimensional. Não é habilidade que se adquire por acúmulo de exames recebidos.
O curso Tomografia na Prática, do Omega Hub, trabalha essa leitura, incluindo a avaliação sistemática do volume completo.
Referências
- Doğramacı EJ, Rossi-Fedele G, McDonald F. Clinical importance of incidental findings reported on small-volume dental cone beam computed tomography scans focused on impacted maxillary canine teeth. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol. PMID: 25457895.
- Dental and Maxillofacial Cone Beam CT: High Number of Incidental Findings and Their Impact on Follow-Up and Therapy Management. 2022. PMC9139763.
- American Association of Endodontists e American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology. Joint Position Statement: Use of Cone Beam Computed Tomography in Endodontics, atualização de 2015.
- Zadik Y et al. Knowledge and responsibility in CBCT practice among general and specialized Israeli dentists: a questionnaire based study. BMC Oral Health, 2025. PMID: 39987133.
- Conselho Federal de Odontologia. Código de Ética Odontológica, Resolução CFO 118/2012.

